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PARA MUDAR O MUNDO É PRECISO MUDAR O HOMEM

Dizia: Mfulumpinga Nlandu Victor

Os verdadeiros crimes do General Miala
Anastácio Ndunduma

Neste artigo, e num exercício de leitura dos sinais dos tempos, passamos em revista o que nos parecem ser os verdadeiros crimes do general Miala nas vertentes política, económica e social, e pelos quais na verdade está a ser - ou procura-se que seja - julgado e à partida condenado.

Mas vamos desde logo avisando que desses crimes ninguém falará explicitamente. Ainda podemos até ser zurzidos, e não seria a primeira vez, por atrevimento a trazê-los à ribalta. Neste exercício, cumpre-se dizer que não foram utilizadas quaisquer fontes, anónimas ou explícitas. Usamos as informações que circularam e circulam à vista de todos, dando-lhes, entretanto, um outro enquadramento, naquilo que consideramos um serviço público na ajuda da interpretação dos factos que se entrecruzam à volta do já considerado julgamento do ano.

Primeiro Crime
(Um intruso)

"Meu nome é Fernando Garcia Miala, nascido em Luanda e moro no Bairro Azul" - disse o homem em tribunal. Mas o que o subconsciente de todos os presentes registou, a começar pelos juízes, foi que não é de um Van-Dúnem, Vieira Dias, Feijó, Santos, e arredores que se trata. É um simples Miala, nascido em Luanda - menos mal - e que até mora no Bairro Azul. Primeiro crime. Esse pode ser considerado o número um dos crimes de que ninguém se atreve a falar, mas verdadeiramente pelos quais Fernando Miala está a ser julgado. Não sendo das ditas "famílias nobres" - termo atribuído ao próprio Presidente da República, segundo o brigadeiro Veríssimo citado pelo general Miala - atreveu-se não só a ocupar um lugar perto do Sol do establishment, como a beliscar, e de que maneira, peças e figuras importantes do poder.

Segundo Crime
(A dimensão politica)

Politicamente, o general Miala começava a ter demasiado poder. Mesmo que delegado pelo Presidente da República, era tanto que ministros e assessores se punham em sentido perante alguém que, ao seu ver, não tinha legitimidade para tanto. Nem advinda das elites urbanas de Luanda, como é o caso dos Vieira Dias, Dias dos Santos, Fontes Pereira e Van-Dúnens, por exemplo. Nem da participação na luta de libertação como um Roberto de Almeida, Kundy Payhama, Paulo Jorge, Nvunda e outros. Muito menos tinha passado pelo crivo do Partido como um Pitra Neto ou Gigi Fontes Pereira, ou pelas batalhas com os sul-africanos como um N´dalu, Ndozi, João de Matos ou ainda Higino Carneiro, Nzumbi, para citar apenas estes. Miala era, tão-somente, um corredor de fora que, beneficiando do secretismo próprio do seu ofício, se tinha instalado no epicentro do poder. E graças ainda a esse secretismo, tal poder apenas podia ser controlado pelo próprio Presidente que tem, naturalmente, muitas outras coisas com que se ocupar. Assim, nunca ninguém sabia quando o general agia segundo ordens do Chefe ou por moto próprio.
Apoiando-se em técnicas de espionagem israelitas, Miala fintou o próprio Savimbi e a sua Brinde e, embalado pelo êxito, apanhou Toninho Van-Dúnem com a boca na botija e entregou-o de bandeja ao Chefe. Erro fatal: Toninho é primo do Chefe e do seu maior "inimigo de estimação", Hélder Vieira Dias "Kopelipa". Num clã poderoso como este, ninguém toca num deles daquela maneira e ficam as coisas por isso mesmo...
A denúncia das engenharias financeiras de Toninho e a sua queda, levando por arrasto Carlos Feijó - outro "nobre", e esse ainda por cima um "barra" - ameaçou quebrar o pacto de silêncio, cúmplice e tácito, criado a partir da famosa frase "Os camaradas estão organizados?" no longínquo ano de 1991. Pacto sobre o qual, hoje por hoje, repousa a estabilidade do próprio Estado. Que um estratega político com a experiência de JES sabe que não pode ser quebrado sob pena de o país sofrer uma implosão de consequências catastróficas. Assim, ao mesmo tempo que tomava as medidas pertinentes para castigar o menino imprudente apanhado com a mão no pote de marmelada (no caso o Toninho), JES tomava também nota mental que o denunciador - expert nas lides de segurança do Estado - não calculara que há coisas que é melhor ninguém querer saber. Hoje um, amanhã outro. Se as manigâncias dos membros do establishment passam a estar sob o crivo dos órgãos de inteligência, as coisas ficam muito complicadas. E vem a pergunta crucial: de quem terá partido a iniciativa de espiar Toninho? Do Chefe? E se foi esse o caso, seria para destapar carecas ou apenas para "xinês" ver? Sobre quem mais terão sido feitos exercícios semelhantes? Estas e outras perguntas ainda levarão tempo até serem respondidas. Mas que foi um mau cálculo político da parte de Miala, lá isso foi, embora tenha valido o patriotismo e a coragem, que o cidadão comum aplaude…

Terceiro Crime
(A dimensão social)

No contexto de lazarice geral (entenda-se miséria de Lázaro) em que a maioria dos angolanos está mergulhada, a assistência filantrópica é percebida como constituindo reserva política estratégica. Ao que a Fundações diz respeito, a Fesa enfiou uma rasteira à Sagrada Esperança, agastando pesos pesados do calibre de Mendes de Carvalho e Roberto de Almeida, que ainda assim, permanecem de sentido. Pelas bandas do Mpla, vemos os ensaios de Bento Raimundo e a sua Ajapraz, do deputado Zé Maria e o seu "O Nosso Soba" (esse nome parece tão extravagante como o de algumas igrejas), enfim. E vai que aparece de um dia para o outro o projecto "Criança Futuro", roubando protagonismo, as luzes da ribalta, a exposição mediática... e passando de esquebra uma censura quase explícita ao abandono a que o Governo vota(va) as nossas crianças! Se os objectivos da Fesa são os que todos sabemos, os da Fundação Sagrada Esperança são a manutenção da imagem de Manguxi, o Nosso Soba e a Ajapraz são armas políticas do Mpla, quais seriam então os objectivos deste outro projecto? Luzes amarelas começaram a acender em muitas mentes com peso no país, a começar pela que mais conta. Ainda por cima em competição directa com a Fesa e a sua filha Lwini...
E como se não bastasse, o projecto tomara de assalto a media estatal, montando uma campanha de marketing bastante agressiva, com figuras públicas dando o rosto e merecendo as parangonas dos jornais e páginas especiais nos noticiários nobres da Rádio e Televisão estatais. E desta vez, já havia a certeza que os autores da emboscada tanto procuravam: não se estava a cumprir ordens do Chefe coisa nenhuma, até porque ele mesmo, um especialista em inteligência, sabe melhor que ninguém que nestas lides o silêncio e a discrição valem ouro. Matutando do alto da sua sapiência profissional o porquê de tanto alarido e traquinice, só uma resposta teimava no horizonte analítico: transplantação do efeito Putin?
Só que aqui por estas bandas não existe um Ieltsin velho e caquéctico a precisar de substituição. Temos um homem com menos de setenta anos de veterania, trinta dos quais ao leme da Nação, precedidos de outros afazeres e na plenitude das suas faculdades. Leonino como é, o rugido e a competente sapatada só levaram o tempo necessário e certo. Órfãos ficaram os seus adeptos que já sonhavam com um futuro melhor...

Quarto Crime
(Os dinheiros públicos...)

Em qualquer país do mundo existe um orçamento para as actividades dos serviços secretos. Que é isso mesmo: secreto. Normalmente é controlado por uma comissão do Parlamento, mas no nosso caso, e conhecendo o Parlamento que temos, é melhor esquecer. No nosso país, crê-se que este orçamento faz parte do famoso e igualmente misterioso "saco azul" directamente controlado pelo Presidente da República.
Ora, por inerência das suas funções, Miala geria uma boa fatia deste orçamento, senão mesmo todo. Note-se que pela natureza secreta das operações a que se destinava, dispensava os procedimentos de controlo contabilísticos habituais, como facturas concursos públicos, etc. O que significa dizer que o general tinha à sua disposição muito dinheiro que podia usar mais ou menos à sua discrição. Como ele foi usado, não será tão cedo que se saberá. Mas que as bocas do povo já chamaram os Toyota Prado com que jornalistas e figuras públicas (e algumas Luandas dois, e... catorzinhas) passaram a circular "Prados do Miala" - lá isso já chamaram. Que houve uma reunião no Palácio Presidencial da Cidade Alta em que o próprio Presidente reclamou dos gastos - verdade ou mentira - lá isso também ouvimos. Mas não se perca de vista que com esse dinheiro, o general executou também operações dignas de constar nos anais dos serviços de inteligência de qualquer país do Mundo, como as defecções de membros do clã Savimbi, de Bento Bembe da Holanda e outras que certamente não saberemos tão cedo. Detentor deste poder económico, o general - parece-nos - fez muitas coisas boas e menos boas. Porém, terá atraído sobre si muitas invejas. E diga-se em abono da verdade que não é normal em nenhuma parte do mundo os orçamentos destinados aos serviços secretos financiarem projectos... filantrópicos, mesmo para crianças claramente carentes.

À guisa de conclusão

"Não sou Van-Dúnem nem Vieira Dias. Muito menos Dias dos Santos, Mingas ou Burity. Mesmo assim vivo por graça no Bairro Azul e reconheço ter atentado contra aqueles que se apertaram para me darem um espaço no inner circle do Poder", deveria ser mais ou menos assim uma "confissão" completa de Fernando Garcia Miala, se estivesse a ser julgado pelos "crimes" que citámos acima. Mas não será. Ele está a ser julgado por não se ter apresentado a uma cerimónia inédita de desgraduação e ter-se apropriado de cerca de 30 mil dólares em... aparelhos de escuta telefónica. Não vá o Diabo tecê-las outra vez e um outro alguém ser apanhado com a boca no pote de mel.
Arroladas as provas relativas a estes "crimes", faz de certa forma sentido a grande acusação que lhe foi feita, se bem que deve ser vista de uma outra forma: Miala não quis, e se calhar nunca lhe passou pela cabeça, atentar contra a pessoa ou a instituição da Presidência da República. Sem respaldo político, económico ou social, isso era simplesmente impensável. Mas atentou, isso sim, contra o poder do Chefe, eventualmente usando indevidamente a confiança que este depositava nele, para objectivos que não soube justificar. Como resultado, o Chefe ficou desiludido com ele e exonerou-o - até aqui nada de novo - e os inimigos acumulados ao longo dos anos de serviço aproveitam-se para atirar-se a ele que nem o burro da famosa fábula tentando escoicear o leão moribundo - e isso é que não está bem.
Emoções à parte, já começa a ficar cada vez mais claro que foi um erro crasso levar aquele homem a julgamento da forma como está ser feito. Por motivos históricos, os tribunais são pódios privilegiados para que aqueles que não têm voz possam dizer das suas verdades. Já se esqueceram de Fidel Castro e Nelson Mandela? Miala fala com um elevado sentido de Estado, mas vão saindo verdades - como essa do PR ver famílias mais nobres e menos nobres e dizer isso mesmo - que talvez estivessem melhor, protegidas por enquanto com o selo do segredo de Estado.
Porque não fazem sentido as acusações - para quê acusar um general de insubordinação e roubo de patacos quando sabemos que a haver crimes houve-os bem mais graves? - A imagem que passa é o de se pretender humilhar o homem. A mensagem que fica é que qualquer outro corredor de fora - entenda-se alguém que não faça parte das elites - que se atreva a faltar com o respeito às tais "famílias nobres" que alguns já dizem ser cem, apanha feio. Se for caso disso, inventam-se até cerimónias nunca antes vistas para pô-los no devido lugar. Convençam outro que se o general não fosse um Miala qualquer mas um das tais, teria que sujeitar-se a uma cerimónia de desgraduação que nem na guerra alguma vez se fez...
Em última análise, está-se a pôr em risco os altos interesses do Estado. Um homem com o manancial de informações que o general Miala possui deve ser protegido e preservado. Protegido para que estas informações não saiam do âmbito próprio, e preservado para que elas possam ainda estar ao serviço do Estado se necessário for. Deve-se levar ainda em conta que, no cumprimento das suas missões, terá feito certamente muitos inimigos e não é justo que agora seja deixado sozinho entregue à bicharada.
Resumindo: um homem que ocupou os cargos do general Miala deve ser reserva estratégica do Estado. A sua vida protegida, e serem-lhe garantidas as honras correspondentes a um antigo governante e a um oficial general dos serviços secretos. Independentemente dos erros que tenha cometido. Será talvez por isso que o PR se recusou a assinar o documento que passaria o general Miala à reforma compulsiva, o que faz perfeito sentido.
Um homem como ele não se põe em tribunal por razões menores - e num país em que ladrões de milhões passeiam-se impávidos e serenos - a não ser que se queira provocar implosões que a ninguém interessa. Deve-se pôr um ponto final a esta charada que só suja a imagem do país. Até mesmo porque está visto que o processo está viciado, absolva-se o homem e trate-se o resto em foro próprio que não a hasta pública.
Agora que lá está, estamos todos a pagar para ver o que é que isso vai dar...

jornalistas insultados

Em duas ocasiões durante o julgamento de Fernando Miala e os três outros responsáveis dos Sie exonerados em Abril do ano passado, o juiz presidente do Stm, António dos Santos Neto "Patónio", insultou os jornalistas angolanos, demonstrando possuir ideias preconceituosas, bem ao jeito do antigo regime totalitário angolano, acerca dessa classe profissional. Na primeira vez, foi logo na abertura do julgamento, quando numa sala repleta de pessoas, entre familiares, amigos e curiosos, escolheu exactamente os representantes da opinião pública que ali estavam a trabalhar para abandonarem a sala. O general "Patónio" tinha a possibilidade mais do que evidente de deixar na sala aqueles que lá estavam por imperiosas questões de trabalho, expulsando os curiosos, mas optou por afastar aqueles em relação aos quais reúne tantos preconceitos, que o juiz considerará que não devem respirar o mesmo ar que ele. Um jornalista deste jornal que permaneceu por alguns momentos na sala ouviu depois o general "Patónio" argumentar a favor da sua decisão, o facto de que "a sala estava irrespirável". Na terça-feira, numa necessária alusão à imprensa angolana, a qual foi provocada no que deveria ser uma réplica juridicamente fundamentada aos advogados de defesa, afirmou que não faz "muita fé em notícias dos jornais". "Não li o Folha 8 e também não faço muita fé em notícias que vêm nos jornais" gabou-se António Santos Neto "Patónio". Essa deve ser uma boa explicação para o facto de o general ter aparentado, no tribunal, não poder gabar-se tanto da formação e de possuir níveis tão sofríveis de informação, mas os jornalistas devem averiguar se o que faz o juiz presidente do Stm receia-los tanto, não seriam factos relacionados com a extinção da Ccpm, quando alguns chicos-espertos quiseram apropriar-se da moradia em que a comissão estava instalada, ou sobre os factos que levaram à cisão do Grupo Metrol ou ainda sobre a constituição da Zuki Off Limits. Os jornalistas chegarão lá.

Fonte: Semanarioangolense

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